É no momento em que as ligações entre as teorias decoloniais e de desconstrução e a justificação do terrorismo islâmico emergem prodigiosamente que vemos a publicação de um ensaio que visa “desconstruir Camus”. O trabalho de Olivier Gloag, Esqueça Camus é apresentado da seguinte forma no site do revendedor:
Oliver Gloag relembra apego visceral – tingido de humanismo – de Camus ao colonialismo e ao modo de vida dos colonos, que perpassa as suas três principais obras: O Estrangeiro, A Peste, O Primeiro Homem.
https://www.babelio.com/livres/Gloag-Oublier-Camus/1509872
A atualização do debate entre Sartre, o prefácio de Fanon, e Camus no momento em que a FLN afirmava fazer parte da resistência, num momento em que o terrorismo palestino afirma ter a mesma ideologia heróica nos mesmos termos que os usados pelo ativistas da década de 60 devem despertar nossa atenção. Para justificar os seus actos mais bárbaros, a retórica belicosa dos teóricos da Resistência Palestiniana terá necessariamente de reactivar a dos transportadores de malas da FIS, e isto envolve a difamação de Camus.
Contudo, por acaso do calendário, é precisamente no momento em que a exegese americana apela a “pôr fim a Camus” que vemos ressurgir na esquerda os teóricos de “o fim justifica os meios”.
“Apego visceral tingido de humanismo” é uma expressão, para falar de Camus, do mais pérfido objetivo de rebaixar todo o pensamento de Camus: seria portanto um homem “biológico”, incapaz de dominar as suas emoções (“viscerais”). só o pensamento filosófico (“humanismo”) seria apenas um pretexto para camuflar a sua incapacidade de pensar (“tingido”). E que coragem para atacar Camus 50 anos depois do acidente de carro em Luzarches…
Em suma, vemos aqui que longe de tentar “esquecer Camus”, o livro de Gloag centra-se antes em “destruir” Camus como se destruiria os alicerces de uma base de resistência contra a invasão do mundo pela aspiração à guerra.
O fato é que Camus é uma espécie de espinho no sapato de todos os beligerantes... Ele é alguém que é colocado ali como uma pedra na literatura mundial porque foi capaz de dizer de uma vez por todas que nada, nunca: nada poderia justificar o assassinato. Nem mesmo a luta contra o colono.
Lembra-nos, numa era que quer legitimar a política através da ciência, que haverá sempre um fosso incomensurável entre palavras e ações, entre justiça e vingança. Querer que a política, que é uma questão de opinião, se torne uma questão de filósofos: é renunciar à sabedoria e é levar o mundo a um caos do qual nada pode emergir.
Esquecer Camus é esquecer uma certa sabedoria popular que não confundia justiça com vingança. Então ele escreveu:
Quando os oprimidos pegam em armas em nome da justiça, dão um passo para a terra da injustiça.
Albert CAMUS (1913-1960), “As razões do adversário”, L’Express, 28 de outubro de 1955
Esqueça Camus? Prefere Sartre e Simone de Beauvoir? Matar Camus, de novo, para ter o direito de matar? É uma questão de guerra que certamente encontra espaço na retórica dos intelectuais contemporâneos e é divulgada nos meios de comunicação social. Ver fonte e esta propaganda não é uma anedota, longe disso. Confirma o que já sabíamos, nomeadamente que a guerra que assistimos foi preparada nas bancadas da universidade durante trinta anos; tem os seus teóricos, os seus aliados; molda as mentes das gerações mais jovens para prepará-las – “esquecendo” o passado – para aceitar um futuro sórdido, dando um passo na terra da injustiça.
Esta ideologia da desconstrução, que nasceu com o pior dos Monstros: Heidegger, é uma ideologia mortal que só ama no homem a sua capacidade de destruir. Camus prefere a vida, talvez porque ela simbolize a esperança. Muitas pessoas ficaram do lado da morte: os humanistas continuarão a acreditar no homem. Então não: não esqueceremos Camus!