Relatório de leitura de livro A devastação do gênero por Pauline Arrighi (Éditions du Cerf, 2023).
Pauline Arrighi é apresentada, na contracapa, como “jornalista independente, especialista em questões de direitos da mulher e bioética”. Seu trabalho sem dúvida atesta isso. Longe dos cânones acadêmicos, ele busca suas fontes e referências na galáxia da Internet, em blogs e outras redes sociais, bem como no universo midiático. Isto é evidenciado pelo sistema de notas, que é um tanto caótico. No entanto, a intenção é explícita: estabelecer que “género” no significado que o termo recebe hoje é uma impostura conceptual que conduz a uma cascata de desordens individuais e sociais e serve interesses financeiros capitalistas bem compreendidos.
É de facto uma questão de devastação e estas são encontradas tanto a nível psicológico e relacional, para os indivíduos, como a nível cultural e institucional, quando se trata de casas de banho públicas e balneários, para não falar dos desvios das lutas emancipatórias das mulheres ou. homossexuais. Seguindo o autor, não há dúvida de que a roupagem pseudoteórica da retórica do gênero veio, no espaço de uma década, desestruturar todas as representações que tínhamos até então da diferença dos sexos, das identidades da qual foi o suporte, bem como os constrangimentos a que fomos obrigados (moral, socialmente) a respeitá-la. A retórica de género introduziu a ideia de que a identidade de género era uma questão de “sentimentos” individuais. Ao fazer isso, ela fechou a porta da realidade para escancarar a das fantasias, sejam elas as mais comuns ou as mais deletérias.
Mas, como sublinha com vigor Pauline Arrighi, estas fantasias poderão admitir implementações muito reais, especialmente quando forem favorecidas pela atitude complacente dos profissionais do setor médico (psiquiatras, cirurgiões, prescritores de bloqueadores da puberdade, etc.), mas também de instituições públicas (Educação Nacional, Ministério da Justiça, etc.). Implementações cujas consequências, tanto para os indivíduos em causa como para as relações colectivas, são em grande parte ocultadas pelas autoridades públicas sob o efeito da difusão da ideologia Transidentidade e o intenso “lobbying” das suas organizações e dos seus “influenciadores” nas redes sociais.
A devastação do gênero de Pauline Arrighi procura, portanto, estabelecer tanto a gênese do fenômeno transidentitário, seus métodos de funcionamento – que vão desde a exploração das alterações psicológicas dos indivíduos até a ação direcionada de poderosas fundações financeiras ad hoc –, os seus excessos por vezes cinicamente perseguidos e muitos dos seus impactos nos equilíbrios psicológicos individuais e relacionais (familiares e sociais), sem esquecer aqueles, insidiosos mas profundos, relativos à imagem da mulher que pretendemos promover.
Para isso, o autor reúne em capítulos muito distintos argumentos com valor probatório extraídos, como já dissemos, do fértil recurso que constitui a Internet. Sem, porém, que essas fontes recebessem o exame crítico e a incorporação problemática que a pesquisa acadêmica teria exigido. Isto não podemos culpar o autor que não persegue este objectivo mas antes pretende alertar a opinião pública. E aí, é perfeitamente bem sucedido.
Num primeiro capítulo intitulado “Quando o género suprime o sexo e torna a ciência obsoleta”, Pauline Arrighi esboça a história das ideias “queer” que vieram perturbar as representações dos sexos ainda em vigor no início da década de 1990, encontrando o seu significado. fonte original na filosofia dualista reduzida, como é comumente feito, à única oposição entre corpo e mente. O pós-modernismo assegurará a sua posteridade ao promover a ideologia “descolonial” que no mesmo movimento combina “dominação” e “racionalidade” para focar na experiência dos dominados estabelecida como a norma absoluta da verdade. Transpostas para a questão do sexo das pessoas, as ideias “queer” professam a mesma rejeição da racionalidade (biológica, experiencial e social), defendem o mesmo relativismo das normas (o binário sexual torna-se espectral) e estabelecem o ditame da “fluidez” egoísta sobre sexo. Daí a chamada evidência, contra a qual a autora continua a rebelar-se, de que “mulheres trans são mulheres”. Com firmeza, Pauline Arrighi também se absterá de utilizar a expressão “mulher trans” para designar homens que se esforçam para assumir a aparência de mulher. Porque se há um ponto que ela destaca ao longo de seu livro é a notificação formal que nos foi dada para nos alinharmos aos desejos do indivíduo transgênero. Principalmente porque a nova nomenclatura em vigor no mundo da psiquiatria (a DSM-V) também promoveu a “disforia de gênero” no lugar da disforia sexual. O capítulo termina com uma sugestão da autora: “a disforia de género abrange de facto, na maioria dos casos, outras realidades”. Como veremos mais adiante, na maioria das vezes estão relacionados a um distúrbio psicológico.
O capítulo dois, o mais substancial do trabalho, aborda as razões identificadas para a propensão para a “transição de género” entre os jovens, especialmente entre as raparigas. Confirmando as observações feitas em muitos países ocidentais ao longo da última década, muitas raparigas, diz-nos Pauline Arrighi, por vezes ainda crianças mentalmente de 8 ou 10 anos de idade, mas precocemente afectadas pela puberdade, envolvem-se em grande número nos chamados caminhos de “transição”. . Como podemos compreender esta mania juvenil, recente e, em última análise, específica? O autor fornece-nos aqui um mapa não hierárquico dos factores geralmente correlacionados com o envolvimento num chamado processo de transição. Passando voluntariamente do ponto de vista do transicionista (geralmente do seu discurso de justificação) para as conclusões singulares de estudos ou observações realizadas em vários campos (da psiquiatria à medição da opinião pública), surge um quadro em que o psicológico os distúrbios que podem acompanhar a infância e a adolescência são aumentados por um coeficiente de perturbação do qual a “transição de género” é muitas vezes apenas a resposta ilusória. Pode ser homossexualidade não declarada, transtornos autistas comprovados, consequências da violência sexual sofrida, enfim transtornos que podem variar “da simples depressão reativa do adolescente ao transtorno psicótico”. A exigência de “transição” entre os adolescentes pode, portanto, ser entendida como um sintoma de tais distúrbios psicológicos.
Embora encontrem no contexto das redes de Internet (web 2.0 em smartphones) algo para receber uma forma de amplificar a resposta fortemente influenciada pelos activistas, individuais ou colectivos, que ali operam activamente. As crianças nascidas depois de 1995 não conheceram um mundo sem redes sociais, recorrem a elas espontaneamente apesar da sua virtualidade e ao fazê-lo expõem-se ao seu poder de influência, através dos seus pares, bem como através de “influencers” certificados. O fenômeno da influência, lembra Pauline Arrighi, tem um suporte fisiológico e significa que nesta idade o emocional geralmente prevalece sobre o racional. Oferece, portanto, de forma muito favorável, um controle sobre todos os afetos que corroboram as suas questões ou as suas ansiedades do momento, obrigando-os inconsideradamente a exigir ocasionalmente "transições de género", como dizem, ou seja, mutações sexuais, como acreditam. A influência, acrescenta o jornalista, revela-se tanto mais eficaz quanto a relação conflituosa do adolescente com o seu círculo familiar passou de um universo onde reinava a autoridade para outro onde o sentimento floresce - o que elimina a distância entre pais e filhos e reduz os espaços para expressar a agressividade deste último. A hipótese precisa ser explorada, talvez aí encontraríamos a base sobre a qual floresce a superpotência transumanista que o transidentitarismo esconde, como ela não deixa de apontar mais tarde.
Os capítulos seguintes procuram estabelecer como o estatuto de minoria social pôde ser forjado em favor de trans. Conjunção de liberalidades, quando não violações éticas dos círculos médicos, argumentos ad hoc grupos de pressão e reclamações de partes interessadas retransmitidas Urbi et orbi, o fenómeno transidentitário foi construído sob os auspícios da minoria oprimida, sujeita aos piores abusos. Um slogan resume a postura de vítima adotada pelos protagonistas do fenômeno: “transfobia mata”, em que encontramos a eterna “fobia” e a ideia de odioso assassinato ritual. No entanto, nada permite estabelecer uma prevalência criminal contra aqueles que se afirmam trans, nem essa “transição” os protege do suicídio. A obra tende, assim, a revelar as vertentes puramente retóricas do slogan.
Mas, para além do discurso da vítima, são os riscos para a saúde incorridos – comprovadamente estes – que encontramos precisamente expostos. Os famosos bloqueadores da puberdade administrados às crianças não podem ser considerados tratamentos de conforto psicológico – são antes as psicoterapias que os ajudam, sublinha Pauline Arrighi – terão, uma vez passado o momento de euforia mutacional, consequências fisiológicas de longo prazo, por vezes gravemente incapacitantes. Os propagandistas do “transgenerismo”, claro, mas também os profissionais do sector médico que se precipitam nele, mesmo as instituições de Segurança Social que o reembolsam, estão assim a embarcar numa ladeira eticamente duvidosa, no mínimo. O que autoriza o autor, no final do capítulo, a saudar o retrocesso de alguns países (Suécia, Finlândia, Austrália, Nova Zelândia) nesta área.
A utilidade de continuar a distinguir homens e mulheres será discutida num capítulo muito esclarecedor, que trata do desporto e do desempenho atlético, bem como dos espaços coletivos que os atletas, como todas as outras pessoas, são levados a frequentar. O “transgenerismo”, somos mostrados, desqualifica as categorias desportivas em vigor, mas sobretudo ameaça os desempenhos alcançados pelas mulheres, uma vez que um atleta “transgénero” mas biologicamente masculino terá um potencial de rendimento sempre superior ao de uma atleta biologicamente feminina. . A partir daí, a categoria esportiva feminina está fadada a acolher apenas as atuações de homens transexuais – aqueles, traiçoeiramente entendemos, que não conseguem triunfar na categoria masculina. Quanto aos vestiários, banheiros públicos e até áreas de detenção penal, o “transgenerismo” não tem outro efeito, além de satisfazer os desejos egoístas do “transgênero”, do que introduzir novos problemas de civilidade, se não se trata de segurança pessoal.
O capítulo final revela algumas das fontes de financiamento do transativismo, estabelecendo assim o que liga as convicções esotéricas de alguns magnatas do comércio e da indústria, particularmente da indústria farmacêutica, com os meios de comunicação e organizações de pressão política que propagam a ideologia transidentitária e, através do direto subsidiar a investigação científica, a orientação desta em favor das chamadas práticas de transição.
A visão geral é edificante. A ideologia trans é desastroso, tanto para muitos dos indivíduos afectados, especialmente os adolescentes que cedem às suas sirenes, como para as relações colectivas, incluindo as mais bem organizadas, como os eventos desportivos. Se consegue acalmar as ansiedades e satisfazer as expectativas narcisistas de alguns – adultos informados, conscientes e responsáveis pelo seu compromisso – esconde massivamente intenções e estratégias que beiram o sórdido. Para além dos cálculos de interesse da indústria farmacêutica e dos profissionais sem escrúpulos, são os processos totalitários e os objectivos, a nível político e social, dos activistas transactivistas que fazem soar os alarmes. Ainda mais quando investem e desviam dos seus objectivos iniciais organizações que tinham sido reconhecidas pelo seu compromisso em concretizar causas mais colectivas: a causa emancipatória das mulheres em particular. Como Planejamento familiar para não o nomear, mas ainda assim seria apropriado olhar mais de perto para a Educação Nacional e para a multidão de associações aprovadas que pretendem informar as queridas cabecinhas sobre a vida sexual que as espera.
A obra de Pauline Arrighi teria cumprido perfeitamente o seu papel desmistificador se não estivesse repleta de formulações, por vezes de frases, pelo menos de pinos explicativos que, em última análise, participam na mesma ideologia que aquela que pretende denunciar. Como a compreensão da ideologia transidentitária é aprimorada pela fórmula encontrada na p. 159 e segundo o qual “o transgenerismo foi desenvolvido por um punhado de homens brancos das classes dominantes”? Supondo que a observação era verdadeira, estamos confundindo o estabelecimento de um facto com a sua capacidade de explicar outro. A menos que seja uma forma fácil de ceder ao espírito da época e aos seus clichés pseudo-explicativos, neste caso os do pensamento “descolonial”. Em diversas ocasiões encontraremos o mesmo processo retórico relativamente à dominação dos homens sobre as mulheres, à intolerância social face à homofilia, quando não é o “tabu” que rodeia a saúde mental dos indivíduos femininos. Fórmulas rápidas, muitas vezes infundadas e sem muita consistência explicativa, mas perigosamente propícias ao reforço das ideologias mais activas no domínio da desestabilização das instituições sociais. Não fosse esta reserva, feita na procura de coerência no nosso raciocínio, o trabalho proposto por Pauline Arrighi continua a ser o mais relevante e o mais útil nestes tempos de grande confusão ideológica. Há até algo a ser bem-vindo na abordagem. Pauline Arrighi recusa categoricamente ceder ao “imperativo da tolerância cega” e a “qualquer forma de manipulação emocional”. Tal como Kant, coloca-se sob a bandeira da sapere aude.