A avó está furiosa: estamos fazendo muito barulho no corredor. Nem conseguimos mais nos ouvir tomando chá com nossos amigos de esquerda. Parece que todos esses comentários, tweets, debates e compartilhamentos nos tornaram "incontroláveis" e, por nossa causa, não conseguimos mais pensar em paz, nem mesmo entre nós. Nós? Nós, as pessoas que conversam nas redes sociais. Desculpe: nas "fofocas sociais" (piada particular (De uma senhora condescendente que desqualifica as pessoas). É 2026, ok: o "espaço público" delas se transformou num caos, vozes populares se atropelam, se esforçam e se dispersam. Alguns podem observar esse alvoroço com compaixão e preocupação, mas essas senhoras o fazem com uma nostalgia quase religiosa: no passado, a opinião passava por "filtros", "salões", "redações" — em suma, por portas bem guardadas... mas elas detinham as chaves. Ah, isso as tornava indispensáveis... Sem dúvida. Hoje, as palavras irrompem de todos os lados, como uma torrente descontrolada. E isso está abalando as pequenas hierarquias de cada bairro. Estamos flertando com o desastre. Em breve, teremos que colocar placas dizendo "Silêncio, democracia em recuperação".
Será este um sinal de crise? Há até quem escreva na imprensa — a imprensa de verdade, aquela que se autoavalia e se reavalia — que — e cito — "este processo civilizatório está se transformando em seu oposto, principalmente por causa das redes sociais". Porque a sociabilidade, aparentemente, era aceitável desde que acontecesse em torno de um chá. Observem: nem todas as formas de sociabilidade, observem. Porque pontificar sobre a sociabilidade no século XVII e os fundamentos da... O Ganso e a GrelhaPara explicar que as hospedarias "eram o lugar da resistência ao poder" e o "nascimento do Iluminismo": aí sim, todos ouvem com atenção. Mas para entender que "redes" e "sociabilidade" andam de mãos dadas no século XXI? Ninguém. Só fofoca. Celebramos a sociabilidade das hospedarias do século XVII, mas franzimos a testa quando ela chega por meio de fibra óptica. Isso diz tudo: a opinião popular, ao falar alto demais, acabou incomodando aqueles que preferem falar baixo — e com propriedade. Porque, no fundo, tudo se resume à moralidade. E ao silenciamento de opiniões divergentes. Mas isso é normal, é para o seu próprio bem.
No entanto, se voltarmos às raízes da democracia, descobriremos que o clamor não é a exceção: é a regra. Imagine: para os atenienses, a cidade-estado não foi fundada na conversa sussurrada de uma sala de estar! Ela foi forjada na ágora, em meio a gritos, chamados, interjeições e desacordos públicos. Talvez até mesmo Péricles, ao falar de igualdade entre os cidadãos, incluísse os mais pobres entre eles? A democracia grega não era silenciosa nem polida; era viva. Se esse sistema degenerou, foi porque se tornou fechado, não porque falava demais. E além disso: será que falamos demais? Isso é curioso: a violência, por outro lado, tende a surgir quando paramos de falar. É precisamente porque não falamos o suficiente que a violência é criada. Violência real: o tipo de violência que matou Quentin. Essas mulheres querem silenciar a todos, e suspeita-se que elas tenham uma estranha confiança no poder da força para silenciar os dissidentes. Não é verdade?
Ao observarmos o pensamento contemporâneo, alguns ainda sonham com uma esfera pública racionalizada, quase litúrgica, onde os argumentos são organizados em silogismos elegantes e onde o debate se assemelha a um colóquio universitário. Que piada! Quase se pode imaginar um administrador da razão zelando pela ordem correta dos silogismos! Esse "modelo" esquece o ponto essencial: a democracia não é um colóquio. Não é consenso. Não é harmonia. É, como uma certa tradição de crítica social tão apropriadamente demonstrou, o espaço da pluralidade conflituosa, onde vozes há muito relegadas à periferia finalmente se ouvem e até mesmo argumentam. Claro, é preciso ser capaz de permanecer na mesma sala que os oponentes e não se retirar sistematicamente ao menor sinal de discordância. Mas a patrona tem sua imagem em mente. Ela defende a República como se defende um espelho: com zelo.
O que alguns chamam de desordem é, por vezes, a irrupção do inesperado, a vitória temporária de uma voz marginal que jamais encontraria eco no círculo íntimo da elite. A imagem fica obscurecida pelo clamor caótico.
Na realidade, o alvoroço democrático preocupa menos pelo seu conteúdo do que pela sua origem. Ele vem de baixo. Não pediu permissão. Não foi aprovado por uma comissão. Não foi tema de um editorial tranquilizador. Esse ruído deixa nervosos aqueles que estão acostumados a ser os guardiões do templo intelectual. Porque o ruído, precisamente, zomba dos filtros. Não respeita as hierarquias de legitimidade que antes eram prezadas. Ele se espalha, se desvia, se transforma, recomeça. Ele se infiltra. E às vezes: está certo. O boato não é o inimigo da política. É a sua sombra. Onde a confiança institucional se deteriora, ele prospera. Onde a confiança é forte, ele morre por si só. As redes sociais não criam a desordem; elas a tornam visível. Elas expõem uma pluralidade que já está presente, já conflituosa, já viva. A democracia não se dissolve nesse alvoroço; pelo contrário, dela extrai a sua vitalidade. Pois a democracia fala alto. Ela lança insultos, exagera, contradiz-se. Às vezes, desagrada. Mas, dentro dessa cacofonia, reside uma energia. A energia que impede que as ideias se tornem rígidas, que os interesses se entrincheiem e que as divisões permaneçam vivas.
E então chega a cabine de votação: aquele momento de silêncio sagrado. O clamor cessa. A decisão é tomada em contemplação. Somente ali, nesse silêncio escolhido e não imposto, se expressa a soberania popular. Aqueles que temem o ruído da democracia talvez se esqueçam de que ele não é uma patologia, mas uma condição. O silêncio, quando exigido fora do contexto eleitoral, não é o selo da maturidade política: é o sinal do medo. Medo do povo, de sua voz vibrante, de sua diversidade. Ora, se queremos uma democracia real — e não uma ficção abafada por uma nostalgia da calma — então devemos aceitar que a liberdade de expressão é esse clamor fundamental, esse grande acordo dissonante, esse diálogo ruidoso que só termina na cabine de votação. Aqueles que querem salvar a democracia do ruído se esquecem de que ela nasceu do tumulto.
Ao protegê-la constantemente das pessoas, acabamos por protegê-la delas.
E naquele dia, não era mais o ruído que ameaçava – era o silêncio.