No tumulto dos desenvolvimentos epistemológicos que varrem a Universidade contemporânea, certas abordagens estão abalando profundamente os fundamentos do que ainda chamamos de ciência. UM a recente chamada de artigos, distribuída por colegas de universidades francesas, ilustra esta tendência. Propõe explorar “as vozes dos mortos, dos espíritos e das entidades”, mobilizando ferramentas da imaginação – artes, performance contemporânea, psicogenealogia, literatura e espiritismo – ao mesmo tempo que as ancora numa abordagem dita científica. Esta tentativa de hibridização entre a racionalidade da ciência e a emoção da ficção constitui, a meu ver, um caminho perigoso que põe em perigo a própria essência do conhecimento universitário.
Uma chamada surpreendente
Veja como ficou o apelo:
Ouça e fale outras vozes (mortos, ancestrais, espíritos, fantasmas e outras entidades) vem de uma experiência chamada “ excepcional » com múltiplas interpretações, no centro de diversas pesquisas científicas e artísticas, do psicogenealogia para a performance contemporânea através psicopatologia clínica, literatura e estudo do espiritismo. Esses chamados fenômenos anormal revelam ainda elementos fundamentais na construção da nossa relação com o mundo e com os nossos mortos, numa dimensão individual e colectiva. Se o atores Embora os cientistas concordem com a prevalência de experiências excepcionais, estas permanecem, no entanto, pouco compreendidas pelo público em geral e marginalizadas fora da clínica psicopatológica. A melhor compreensão dos seus modos de aparecimento e funcionamento surge como um desafio contemporâneo, cujo desafio a colaboração das artes e das ciências abre novas perspectivas, nomeadamente ao nível da representação e mediação destas experiências para o público.
Se fosse um programa de estudo das representações associadas à comunicação com os mortos, então teria o seu lugar na universidade, em termos de análise literária, de antropologia das crenças, de sociologia das representações: a magia, como Techné é objeto de estudo. Mas de forma alguma uma forma de epistemologia! Recordamos o caso da tese de Élisabeth Teissier e o julgamento de charlatanismo que dela resultou. É um eufemismo dizer, lendo este texto, que ele foi premonitório da evolução dos nossos estudos Leremos proveitosamente uma análise desta tese após a defesa, uma verdadeira joia do pensamento crítico..
A Universidade assenta num contrato tácito mas sólido: o de submeter a realidade a quadros metodológicos comprovados, capazes de distinguir entre uma hipótese fundada e uma crença. Isto não significa que as ciências humanas, ou mesmo as chamadas ciências “duras”, estejam isentas de imaginação. Qualquer abordagem científica envolve um elemento de intuição, projeção e criatividade. Mas estes elementos servem como início de um empreendimento crítico e racional que, através da sua estrutura, neutraliza o irracional para se aproximar da verdade.
Contudo, o que vemos hoje é uma tentativa de fazer pender este frágil equilíbrio. As abordagens que destacam a mediunidade, ou o que modestamente chamam de “experiências excepcionais”, já não utilizam as ferramentas da imaginação para alimentar o conhecimento racional. Pelo contrário, estabelecem a imaginação como um sistema autónomo, ou mesmo como uma nova autoridade epistemológica. Por uma estranha inversão, o que antes era literatura ou expressão artística torna-se um facto científico, tratado com a mesma seriedade que a análise de dados quantitativos ou qualitativos.
Lembre-se do nosso papel
Perante esta deriva, é fundamental recordar o papel central da literatura na análise e interpretação dos discursos atribuídos aos mortos. Como escrevi em um texto anterior, ser literário é defender a necessidade absoluta de respeitar a incerteza. Os mortos, por definição, estão ausentes. Não podem intervir para esclarecer ou resolver os debates que lhes são atribuídos. O seu silêncio, se nos encoraja a imaginar ou a interpretar, impõe também uma ética: a de admitir que qualquer posição que lhes atribuamos é uma construção, uma possibilidade entre outras.
Neste sentido, a ciência da literatura tem uma missão específica: não procura ouvir os mortos nem transcrever vozes imaginárias em verdades factuais, mas abrir o leque de possibilidades, explorar as zonas de incerteza que constituem o próprio cerne da a experiência humana. Fazer os mortos falarem inequivocamente não é apenas cruzar a fronteira entre o racional e o irracional, mas sobretudo é trair a missão literária, que nunca pretende reduzir o silêncio a uma verdade, mas considera-o como um espaço de interpretação.
Contudo, atribuir aos mortos um discurso ou uma intenção através de práticas pseudocientíficas é usurpar o seu silêncio para transformá-lo em discussão. É congelar a imaginação num dogma, onde a literatura nos ensina a aceitar o que não sabemos. Também corre o risco de confundir o que constitui arte – uma possível encenação do passado ou do invisível – com o que constitui conhecimento baseado em métodos comprovados.
Esta confusão de géneros abre a porta à irracionalidade dentro dos limites da Universidade. Pior ainda, corre o risco de legitimar práticas que afirmam ser conhecimentos alternativos. Se considerarmos que “ouvir vozes” é uma experiência válida porque revela “elementos fundamentais na nossa relação com o mundo e com os nossos mortos”, onde paramos? Em breve reconheceremos a mediunidade como uma habilidade profissional? Ensinar a interpretação de mensagens de entidades como ensinamos hoje a psicologia cognitiva ou a sociologia crítica? A ideia parece ridícula, mas a História está repleta de exemplos em que o relativismo epistemológico abriu caminho a excessos muito reais.
Diante disso, temos uma responsabilidade. Devemos reafirmar que a ciência, nas suas múltiplas variações, se baseia numa tensão crítica que a obriga a prestar contas à realidade. Isto não significa a erradicação da imaginação, mas a sua domesticação por estruturas racionais. Somos os defensores dos mortos, não porque ouvimos as suas vozes, mas porque nos recusamos a submeter o conhecimento a ilusões sedutoras. A ciência não pode ser um campo de experiências “excepcionais”; é, acima de tudo, um espaço de exigência intelectual.
Pode ser que seja altura, para além do trabalho de monitorização do nosso Observatório, de a CNU e a Instituição assumirem estes abusos...