Emmanuel Macron fala frequentemente sobre a língua francesa. Ele se expressa com uma fluência vertiginosa, que lhe permite transformar o óbvio em revelação... ou uma aproximação em doutrina. Esse talento deve ser reconhecido. Contudo, três frases recentes ou recorrentes bastam para revelar um problema que vai além de mera falta de tato.
Dizia-se que as línguas regionais eram "um instrumento de divisão dentro da nação". A frase provém do discurso de Emmanuel Macron na Academia Francesa em 14 de novembro de 2024, durante a apresentação da nona edição do Dicionário da Academia Francesa. O site oficial do Palácio do Eliseu confirma o evento e seu contexto institucional: a apresentação do dicionário, a missão da Academia e a preservação e o enriquecimento da língua francesa. Segundo o jornal Actualitté, Macron afirmou que a língua francesa era "o crisol da unidade do país" e, em seguida, "a forja de uma nação que, de outra forma, teria se evaporado em suas línguas vernáculas, seus dialetos, suas diversas línguas regionais, muitas das quais ainda existem, mas que eram, em essência, um instrumento de divisão dentro da nação". O veículo de comunicação basco Mediabask também citou a passagem, situando a frase por volta dos 29 minutos e 24 segundos do discurso. Ele também destaca que essa posição contradiz declarações anteriores de Macron em Villers-Cotterêts, onde afirmou que um francês pode reivindicar várias afiliações linguísticas e que todas as línguas são iguais "do ponto de vista da dignidade".O epicentro da cultura francesa estaria agora localizado na Bacia do Congo.
Macron já havia dito isso na Cúpula da Francofonia em Yerevan, em 12 de outubro de 2018: "quando digo língua francesa, estou falando de nossas línguas francesas, cujo epicentro [...] não está nem à direita nem à esquerda do Sena, mas sem dúvida na bacia do rio Congo, ou em algum lugar da região." Ele repetiu isso no mesmo espírito em Vanuatu, em 27 de julho de 2023: "Hoje, seu epicentro [...] está, do ponto de vista demográfico, sem dúvida na bacia do rio Congo."Diz-se que o árabe é a segunda língua mais falada na França. Esta declaração surge no contexto da visita de Macron ao Egito e da inauguração do novo campus da Universidade Senghor em Borg El Arab, perto de Alexandria, em 9 de maio de 2026. A Agência Anadolu cita a frase: "O árabe é a segunda língua mais falada na França, e este é um fato que precisa ser reiterado regularmente."Cada uma dessas afirmações pode ser explicada, matizada e até defendida, se tivermos o cuidado de contextualizá-la. Mas a sua combinação produz algo diferente de um discurso sobre línguas. Revela uma forma de pensar a França, ou melhor, uma recusa em pensá-la como algo além de um espaço percorrido por fluxos, números, sinais diplomáticos e promessas demográficas. Não questiono aqui que a língua francesa tenha uma presença global. Nem questiono que a África francófona seja um dos seus grandes mercados futuros. Não questiono que o árabe esteja muito presente na sociedade francesa, nem que as línguas regionais tenham tido uma história difícil com o governo central.
No entanto, questiono o uso político dessas descobertas.
Uma língua não se define apenas pelo número de seus falantes. Uma nação não pode ser resumida pelo mapa de suas práticas internas. Uma civilização não sobrevive por muito tempo quando escolhe se descrever com o vocabulário de sua própria dissolução.
As línguas regionais não dividiam a França: elas eram a própria França.
A declaração sobre as línguas regionais é a mais reveladora, pois parece vir de outra época. Ela se baseia numa antiga ideia administrativa: a de que a França deveria ter se protegido de seus dialetos, de suas línguas locais, de suas lealdades provinciais, como se fossem pequenas sedições adormecidas. Supostamente, o francês teria forjado a nação contra essas línguas, e essas línguas, por sua vez, teriam representado a desordem da qual ela precisava escapar.
Ninguém nega que o francês contribuiu para a unidade do país. Era a língua do direito, das escolas, da administração, das conversas eruditas e da ambição social. A Ordenança de Villers-Cotterêts, a Revolução, o sistema escolar republicano, o exército, a imprensa e a universidade, todos impuseram ou disseminaram uma língua comum. Essa história existe. Ela produziu um raro poder unificador. Permitiu que pessoas de províncias muito diferentes participassem da mesma vida pública. Deu aos cidadãos uma língua do direito e, portanto, uma língua da igualdade. Mas essa verdade não justifica interpretações equivocadas. As línguas regionais não eram, por sua própria natureza, instrumentos de divisão. Eram as línguas do nascimento, do trabalho, das paisagens, das famílias, das províncias, das lealdades de longa data. Falavam da França antes de falarem da República. Bretão, occitano, basco, corso, alsaciano, flamengo, catalão e as línguas de oleiro não eram conspirações contra a nação. Eram modos de vida. Eles não precisavam ser humilhados para que os franceses fossem amados.
O Estado frequentemente confundiu unidade com uniformidade. Acreditou que uma língua comum exige a subjugação de outras e transformou a diversidade interna em ameaça, quando esta poderia se tornar um patrimônio. Esse erro jacobino não nos obriga a abandonar o francês como língua nacional; pelo contrário! Obriga, porém, a refletir sobre o assunto com mais firmeza. Uma língua comum não precisa desprezar as línguas que une. Deve organizá-las sem negá-las e criar um espaço mais amplo para o diálogo, não apagar toda a memória anterior. O paradoxo reside no fato de que o mesmo presidente que suspeita que as línguas regionais sejam divisivas celebra prontamente as múltiplas identidades quando estas provêm de outros lugares. Línguas com raízes nas províncias francesas causam preocupação; línguas originárias da imigração despertam interesse; as línguas da Francofonia global inspiram entusiasmo. Isso é menos uma reflexão sobre o pensamento do que um reflexo dos tempos: a diversidade é suspeita quando evoca a velha França; torna-se preciosa quando anuncia a nova.
O Congo não é o Sena.
A afirmação sobre a Bacia do Congo talvez pareça mais precisa. De uma perspectiva demográfica, o centro de gravidade da Francofonia está se deslocando. Sem dúvida, os países africanos francófonos terão uma influência crescente no futuro digital do francês, e não há motivo para alarme. E se esse crescimento for acompanhado por escolas fortes, materiais de leitura, universidades, jornais, bibliotecas, obras literárias e liberdade política: melhor ainda! Uma língua que viaja não perde necessariamente sua essência. Ela pode ser enriquecida por novas vozes.
Mas a palavra "epicentro" não é inocente. Ela sugere uma mudança mais profunda do que uma simples observação estatística. Implica que os números por si só são suficientes para determinar o centro. No entanto, nossa língua não é um censo. Não se trata apenas do que é falado "em francês". Trata-se também do que foi escrito, debatido, transmitido, corrigido, ensinado e valorizado em francês. Uma gramática, uma literatura, uma forma de raciocínio, um refinamento da abstração, uma história da frase: algo que transcende a mera comunicação. O francês pertence a todos que o falam, mas isso não o torna uma língua sem origens. Não é um idioma flutuante que pode ser dissociado de sua história e exaltado para as massas. Sua pátria original importa! Não para excluir outras, mas porque toda língua da civilização carrega uma dívida. O latim sobreviveu a Roma, mas nunca foi compreendido sem Roma. O espanhol pertence tanto à América quanto à Espanha, mas Cervantes não se torna uma anomalia provinciana simplesmente porque a Cidade do México ou Buenos Aires conferiram outras grandezas à língua. O francês global não apaga a França. Isso a expande ou a trai, dependendo da nossa interpretação. Devemos, portanto, distinguir entre a Francofonia como espaço demográfico e o francês como patrimônio civilizacional. A primeira pode mudar, multiplicar-se e transformar-se. O segundo exige fidelidade. Não se trata de manter Paris como uma "alfândega" de vocabulário ou uma "prefeitura" de uso correto, não. Trata-se de lembrar que a autoridade de uma língua não se mede apenas pela sua circulação, mas também pelo que ela nos permite pensar, pelo que ela preserva e pelo que ela exige.
Uma língua pode ter muitos falantes e poucos leitores. Pode ser ubíqua, mas não ser transmitida para lugar nenhum. Pode servir à publicidade, à música, à diplomacia, ao comércio e, ainda assim, gradualmente deixar de ser o repositório do pensamento. O perigo não reside no fato de o francês ser falado às margens do Congo. O perigo seria que essa língua vibrante fosse usada para justificar seu próprio abandono na França.
Árabe na França, o árabe da França?
A afirmação sobre o árabe exige cautela. Dizer que o árabe é a segunda língua mais falada na França pode ser verdade ou mentira, dependendo do que se entende por isso. Estamos falando do árabe clássico, do árabe padrão moderno, do árabe dialetal, do darija marroquino, do árabe argelino, do árabe tunisiano ou de línguas familiares que são mais ou menos transmitidas, mais ou menos escritas, mais ou menos dominadas… em famílias imigrantes que são, em sua maioria, falantes de berbere? Estamos falando de uma língua que é lida, falada, compreendida, rezada, cantada e estudada? A linguística começa justamente quando abandonamos os slogans. Não há razão para desprezar o árabe. É uma grande língua da civilização. Ela carrega uma teologia, uma filosofia, uma poesia, uma ciência e uma memória imperial e religiosa. Pode ser estudada seriamente. Deveríamos, inclusive, estudá-la mais a fundo, ou seja, como uma língua difícil, complexa e nobre, e não como uma ferramenta de comunicação comunitária ou um sinal de apaziguamento político. Mas ainda assim devemos distinguir entre o fato em si e sua interpretação. O fato de uma língua ser amplamente falada em um território não lhe confere necessariamente o mesmo status de língua nacional. A França possui muitas línguas. Há línguas regionais, línguas de imigração, línguas usadas nas escolas, línguas litúrgicas, línguas comerciais e línguas do coração. No entanto, possui apenas uma língua nacional. Essa distinção não é de forma alguma ofensiva. Na verdade, é essencial para a possibilidade de convivência.
O francês não é apenas a língua majoritária. É a língua do direito, das escolas, da cidadania, do debate público. É o que permite aos cidadãos de diversas origens não ficarem confinados às suas heranças culturais particulares. O fato de o árabe ser amplamente falado na França diz algo sobre imigração, famílias, religião, vizinhança e transmissão cultural. Não nos diz (ainda) o que a França deveria querer para si. Por fim, uma estatística não constitui uma política linguística. Pode lançar luz sobre uma realidade; não determina um destino. Podemos reconhecer a presença do árabe sem torná-lo o símbolo de uma nova França destinada a se definir em oposição à sua língua cultural tradicional. Podemos ensinar árabe sem enfraquecer o francês. Podemos reconhecer uma importante língua estrangeira sem transformá-la em um argumento contra a assimilação. Tudo depende da intenção. E é precisamente essa intenção que preocupa quando uma potência fala da língua francesa com mais ternura pelas suas periferias do que pelo seu coração.
O erro: confundir todos os planos.
A dificuldade reside menos em cada frase individual do que na sua soma. Quando fala de línguas regionais, Emmanuel Macron retoma o antigo tom centralizador: a diversidade local ameaça a unidade. Quando fala do Congo, transforma-se num demógrafo: os números deslocam o centro. Quando fala do árabe, transforma-se num sociólogo e diplomata: a presença de uma língua na sociedade francesa merece reconhecimento. Estas três linhas de raciocínio podem ser defendidas separadamente. Juntas, formam uma incoerência. O governo suspeita das línguas regionais em nome da nação, depois relativiza a língua nacional em nome da Francofonia global, e depois valoriza uma língua imigrante em nome da realidade sociológica. É jacobino quando se trata das províncias, globalista quando se trata de África e multiculturalista quando se trata do árabe. Não existe aqui uma política linguística. Lidamos com uma "coisa" informe, que se adapta aos caprichos dos poderes constituídos e que formula políticas não por escolha, mas por contingência orgânica. Não tomamos decisões; Simplesmente suportamos os acontecimentos, até mesmo nos deleitando com eles. Demografia? Não é uma política, mas uma dádiva. Desconstrução? Não é uma política, mas um fato inevitável. Clima? Não podemos fazer nada a respeito; é assim mesmo, devemos obedecer às leis da mudança imposta. Idioma? O mesmo. Cultura? "Essa" pode ser contornada.
Mas uma língua exige uma estrutura de pensamento. Devemos distinguir entre o que constitui a língua nacional, o que constitui o património regional, o que constitui a Francofonia internacional e o que constitui as línguas estrangeiras presentes no território. Tudo pode ser reconhecido, mas nem tudo pode ocupar a mesma posição. A confusão destas distinções conduz inevitavelmente à confusão. Será que o francês se tornaria a língua da ditadura simplesmente porque os seus falantes são (ou já são) súditos de regimes ditatoriais?
O francês acolhe palavras de outros lugares. Sempre acolheu. Ele consegue ouvir os sotaques do mundo. Pode produzir literaturas africanas, quebequenses, caribenhas, suíças, belgas e libanesas. Pode até ser desafiado pelo uso popular, desde que escolas, universidades, editoras e críticos continuem a transmitir a língua formal. Uma língua viva não é estática. Mas uma língua viva também não é abandonada ao vento. A norma não é inimiga da vida, mas sim a sua condição. Sem ela, torna-se ruído social. Circula, diverte, sinaliza, vende, seduz, mas já não educa. Já não nos permite captar as nuances do direito, da literatura, do pensamento ou da memória. Torna-se aquilo que a política fantasia: um instrumento imediato, sem profundidade, sem dívida, sem mestre.
A língua francesa como disciplina da mente
Leciono linguística, francês antigo e a língua francesa. Portanto, sei que as línguas mudam. Sei que elas tomam empréstimos, que se modificam, que às vezes se simplificam, que se tornam mais complexas em outros lugares, que vivem pelo uso e não por decreto. Nada é mais ridículo do que um purismo que ignora a história. O próprio francês nasceu de alterações, contatos e transformações lentas. Ele carrega em sua essência traços do latim vulgar, das línguas germânicas, do italiano, do espanhol, do árabe, do inglês e de muitas outras influências. Aqueles que querem uma língua quimicamente pura não estão defendendo o francês; estão criando um museu. Mas o extremo oposto é mais perigoso hoje. Consiste em acreditar que uma língua é meramente um uso, que um uso é equivalente a outro, que um erro repetido se torna imediatamente uma vantagem, que um empobrecimento da expressão merece o nome de evolução, que o desaparecimento de nuances é uma vitória democrática. Essa ideia lisonjeia os tempos porque nos absolve da necessidade de aprender. Apresenta a preguiça como abertura e a ignorância como modernidade. O francês antigo ensina algo completamente diferente. Mostra que o francês tem profundidade. Isso nos lembra que nossa língua não começa com discursos ministeriais, mensagens publicitárias, jingles industriais ou improvisações presidenciais. Ela tem uma longa história. Sobreviveu a regimes, guerras, disputas religiosas, revoluções estéticas, reformas educacionais, academias, salões, salas de aula e imprensas. Moldou gerações de mentes que falaram não apenas para comunicar, mas também para julgar.
Uma língua de civilização é uma escola de precisão. Ela nos ensina a distinguir o que é semelhante, a priorizar o que está justaposto, a nomear o que nos escapa. Dá palavras às paixões para que não se tornem meros gritos. Dá sintaxe ao pensamento para que não se contente com meras opiniões. Dá aos vivos uma memória para que não comecem o mundo de novo a cada manhã em amnésia. É por isso que a questão do francês não pode ser reduzida a uma agradável celebração da diversidade. A diversidade não é um princípio suficiente. Há diversidades fecundas e diversidades destrutivas. Há misturas que enriquecem porque encontram uma forma forte. Há outras que enfraquecem porque ocorrem no vácuo. Para acolher, é preciso primeiro ter um lar.
Defesa e Ilustração da Língua Francesa
Defender o francês não significa negar as línguas regionais, nem desprezar línguas estrangeiras, nem rejeitar a Francofonia global. Significa colocar tudo em seu devido lugar. As línguas regionais pertencem ao patrimônio da França. Não são inimigas internas. A Francofonia africana é uma oportunidade, desde que não seja usada para desnacionalizar simbolicamente o francês. O árabe é uma grande língua que merece mais do que os usos táticos que os governos lhe atribuem. O francês, por sua vez, continua sendo a língua comum da nação francesa e a língua de uma civilização pela qual somos responsáveis.
Não basta que uma língua seja falada. Ela precisa ser transmitida. Não basta que seja transmitida. Ela precisa ser ensinada. Não basta que seja ensinada. Ela precisa ser amada por aquilo que nos permite transcender a nós mesmos. Uma língua que não promete mais nenhuma elevação está morta. Ainda se pode pedir uma refeição, preencher um formulário, expressar um desejo, denunciar um adversário. Mas não se pode mais forjar um povo com ela. A tragédia francesa não é que outros falem francês em outros lugares. É que, às vezes, parece que desistimos de falar nossa própria língua como uma língua digna de ser herdada. Nós a suavizamos, a simplificamos, a desculpamos, a sociologizamos, a mercantilizamos, a globalizamos e, então, nos surpreendemos ao constatar que ela não estrutura mais quase nada. O francês não precisa apenas de falantes. Precisa de professores, alunos, leitores, escritores, gramáticos, professores universitários, pais e instituições que não se envergonhem de transmiti-lo. Há uma maneira generosa de conceber a língua francesa. Consiste em dizer que pode ser oferecida ao mundo sem ser arrancada de sua história. Pode se tornar africana, americana, oriental, oceânica, sem deixar de ser francesa em sua origem e em parte essencial de sua forma. Pode acolher novas vozes sem consentir com o apagamento de sua memória. Pode ser comum sem ser vaga.
O que essas declarações presidenciais revelam é menos um ódio ao francês do que uma incapacidade de habitá-lo. O francês é apresentado sucessivamente como uma ferramenta de unificação, um mercado demográfico, um símbolo diplomático, um acessório da diversidade. Nunca é apresentado pelo que também é: uma disciplina da mente, uma literatura, uma pátria verbal, uma longa conversa entre os mortos e os vivos. A França pode reconhecer todas as línguas que quiser. Pode celebrar línguas regionais, ensinar árabe, saudar o Congo, dialogar com Montreal, Dakar, Bruxelas, Porto Príncipe ou Beirute. Pode fazê-lo nobremente. Mas só o fará nobremente se não se esquecer de que o francês não é um deserto. É um lar. Um lar se abre, se expande, se restaura, se transmite. Não se defende entupindo as janelas. Nem se salva demolindo os alicerces.