A questão da violência ocupa hoje um lugar central no debate público francês, a ponto de se tornar um recurso retórico quase automático na tomada de decisões políticas. Sejam incidentes isolados, radicalização, delinquência juvenil ou agitação social, a violência é invocada como uma explicação óbvia. Nunca é considerada como um conceito. Essa proliferação é acompanhada por um paradoxo preocupante: quanto mais a violência é denunciada, menos ela é definida. Assim, no debate contemporâneo em torno das redes sociais e dos videogames, a violência é frequentemente equiparada à frustração, à excitação ou à intensidade das emoções, justificando propostas de proibição total apresentadas não por famílias, mas pelo próprio Estado. No entanto, tal equiparação se baseia em uma profunda confusão conceitual. Confundir violência com frustração é ignorar uma importante distinção filosófica, já presente em Aristóteles, entre o que pertence às emoções educáveis e o que constitui uma ruptura na ordem do significado e da linguagem. A frustração, longe de ser violenta em si mesma, é uma experiência constitutiva da subjetividade humana; A violência só se torna violenta quando deixa de ser mediada pela linguagem, pela educação e pela inscrição simbólica dentro de um mundo compartilhado. A violência, por outro lado, não se define pela intensidade nem pela raiva, mas por um ato que suspende toda possibilidade de diálogo.
Essa distinção é crucial. Pois, se a violência começa onde a fala termina, como convergem as análises clássicas da filosofia política e moral, então os mecanismos culturais que envolvem frustração, fracasso, repetição e regras (como os videogames) não podem ser responsabilizados pela violência sem uma análise rigorosa de sua relação com a linguagem e a educação. Pelo contrário, podem surgir como espaços para simbolizar e aprender sobre a perda, enquanto a verdadeira violência se caracteriza por um desengajamento progressivo do discurso e da interação com o outro.
A tentação do Estado de substituir pais e educadores, proibindo, em nome da prevenção da violência, práticas culturais consideradas frustrantes ou estimulantes, representa um grande problema filosófico. Ao alegar eliminar as supostas condições de violência por meio da coerção, o Estado corre o risco de não compreender a própria natureza daquilo que combate e de transformar uma questão educacional e simbólica em uma questão de ordem e restrição. Essa deriva lembra as análises de Max Weber sobre o monopólio da violência legítima, bem como as críticas de Friedrich Engels a um Estado que confunde regulação social com dominação. Os videogames devem ser defendidos: não para negar a existência da violência, mas para rejeitar o diagnóstico falho que nos é imposto. Quero argumentar, contra as simplificações contemporâneas, que a violência não pode ser pensada como um excesso de frustração e que sua prevenção não pode vir da proibição cega ou da supressão de experiências formativas de fracasso, mas sim da educação em linguagem, simbolização e conflito não violento.
Até que ponto a confusão entre frustração e violência leva o Estado contemporâneo a responder com coerção ao que é, na verdade, uma questão de educação? E como uma análise filosófica da violência como ruptura da linguagem nos permite repensar o papel de práticas culturais como os videogames na formação de sujeitos e na prevenção da violência política e social?
Violência e discurso: uma antítese conceitual
Começarei com uma tese simples, porém filosoficamente complexa: a violência não é um excesso de palavras, mas sim a sua negação. Essa tese está longe de ser intuitiva no debate público contemporâneo, onde a violência é sempre concebida como um transbordamento, uma saturação ou um extremo das emoções. Isso é esquecer Aristóteles muito rapidamente. Para Aristóteles, a violência (bia) é definido como um movimento cujo princípio é externo ao ser que o experimenta:
Chamamos de violento aquilo cujo princípio é externo, sem que a pessoa que é afetada contribua de alguma forma para isso. Física, III, 1.
Essa definição clara deve ser aplicada à humanidade: a violência não é uma intensidade interna, mas uma ruptura da autodeterminação racional. Quando uma pessoa fala, delibera e argumenta, ela permanece autora de seus atos; quando é violenta, deixa de agir para silenciar os outros. A violência não argumenta, ela impõe. Essa oposição já está no cerne do pensamento de Platão, para quem a cidade é definida, antes de tudo, como um espaço de logos. GórgiasA violência surge precisamente quando as palavras falham e a coerção substitui a persuasão:
Precisamos urgentemente reler Platão! A violência não é simplesmente o uso excessivo da força, mas o fim absoluto e irrevogável de toda comunicação. Ela começa quando o outro deixa de ser reconhecido como um possível interlocutor. É sempre, sempre, um mergulho no silêncio, mesmo quando acompanhado de gritos, slogans ou justificativas posteriores. Esses ruídos não são linguagem no sentido filosófico: eles não buscam mais uma resposta; anunciam uma decisão já tomada.
Frustração: uma experiência que pode ser aprendida, não violenta em si mesma.
É precisamente essa distinção que nos permite dissipar uma grande confusão: frustração não é violência. Frustração é uma experiência afetiva; violência é uma ruptura simbólica. Confundi-las é eliminar qualquer possibilidade de educação. Aristóteles, mais uma vez, fornece uma estrutura conceitual que nos permite integrar isso como um princípio educacional autoevidente.'Ética a Nicômaco'Ele insiste que as paixões não são boas nem más em si mesmas, mas que devem ser educadas pelo hábito e pela razão:
As virtudes não nascem em nós por natureza, mas sim através do hábito. Ética a Nicômaco, II, 1
A frustração (fracasso, espera, perda…) é parte integrante dessa educação emocional. Não é um perigo; é uma condição do desenvolvimento moral. Uma pessoa que nunca experimentou frustração seria incapaz de autogoverno. A frustração só gera violência quando deixa de ser simbolizada, quando deixa de encontrar mediação linguística ou educacional. Nesse sentido, os videogames são um exemplo clássico (e como isso é verdade). Eles encenam repetição, fracasso, regras arbitrárias e perdas temporárias. Mas fazem isso dentro de uma estrutura simbólica explícita, onde a frustração é moldada, ritualizada e compreendida como tal. O jogador frustrado ainda se comunica, seja consigo mesmo, com os outros ou com o jogo, enquanto permanecer dentro desse espaço regulamentado. A violência, no entanto, começa quando essa estrutura simbólica é abandonada. Alguém pode praticar boxe por vinte horas por dia e ser dócil. Alguém pode errar uma tacada no golfe e explodir de raiva. Violência não é frustração.
Educação, linguagem e prevenção da violência
Se a violência começa onde a fala termina, então a verdadeira prevenção da violência só pode ser linguística e educativa, nunca puramente coercitiva. Prevenir a violência não consiste em eliminar as oportunidades de frustração, mas em aprender a não abandonar a linguagem sob a influência da frustração. Essa ideia é central para qualquer filosofia da educação. Ela pressupõe que aceitemos o fracasso, o conflito e a tensão como momentos normais no desenvolvimento da criança e do sujeito que a compõe. É aqui que a confusão se torna perigosa: ao tentarmos eliminar todas as experiências potencialmente frustrantes, privamos o indivíduo das ferramentas simbólicas necessárias para confrontar a realidade. Mais uma vez, a experiência mostra que a verdadeira violência não é precedida por uma escalada de explosões verbais, mas por um recuo gradual da fala. Quando a linguagem deixa de ser um espaço de mediação, a decisão violenta já foi tomada. Não é a intensidade da emoção que é decisiva, mas o afastamento do discurso. Quando tive a oportunidade de trabalhar com Martin Lamotte e seu Centro de Estudos sobre Radicalização e Terrorismo, particularmente nos casos do Merah, observamos que o ato de realizar o ataque foi acompanhado — ao contrário do que se poderia pensar — por um declínio gradual na atividade nas redes sociais, o que é um sinal de tomada de decisão radical. QED.
A referência à maiêutica é fundamental. Essencial. O método socrático baseia-se num teste de carência, ignorância e frustração intelectual. É concebido para confrontar o interlocutor com a inadequação das suas certezas. Este teste pode ser doloroso, mas é inteiramente verbal. Vital e necessário para a inteligência. Mesmo os videojogos, sem serem filosóficos, funcionam por vezes como dispositivos maiêuticos imperfeitos: propõem problemas, impõem regras e exigem perseverança. Proibi-los em nome do combate à violência equivale a rejeitar a ideia de educação através da tentativa e erro, e a confundir proteção com a infantilização do cidadão. É uma ladeira escorregadia, que um poder fraco, perverso e impotente não hesita em percorrer.
O Estado, a violência legítima e a tentação tirânica
É aqui que a crítica política se torna inevitável. Quando o Estado tenta substituir pais e educadores proibindo práticas culturais em nome da prevenção da violência, ele cruza um perigoso limiar conceitual. Max Weber nos lembrou que o Estado se define pelo seu monopólio sobre o uso legítimo da força física.
O Estado é a comunidade humana que reivindica com sucesso o monopólio da violência física legítima. O estudioso e o político.
Mas esse monopólio não pode se estender à formação moral e simbólica dos indivíduos sem se transformar em dominação. Foi isso que Friedrich Engels denunciou quando mostrou que o Estado tende a naturalizar sua própria coerção, apresentando-a como necessária.
O Estado não é imposto à sociedade de fora para dentro; ele é um produto da sociedade em um determinado estágio de desenvolvimento. A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado
Um Estado que proíbe em vez de educa admite sua incapacidade de conceber a violência como algo além de um problema de ordem. Ele substitui o longo, incerto e conflituoso trabalho da educação pela solução imediata da coerção. Ao fazer isso, reproduz precisamente aquilo que alega combater: a substituição da linguagem pela força. Esta é precisamente a definição de perversão.
Conclusão
Em última análise, o que a tentação de proibir videogames e redes sociais em nome da violência revela não é uma política de proteção, mas um abandono educacional. Ao substituir os pais, o Estado não os ajuda: absolve-os da responsabilidade. Reforça uma infantilização já avançada, onde se pode continuar a jogar, consumir e entreter-se enquanto as crianças assistem, mas não para aprender; não, não, não… mas para simular uma abdicação de responsabilidade. Ora, educar é aceitar o conflito, a frustração, o esforço e as palavras, por vezes dolorosas, que acompanham o fracasso. Proibir, por outro lado, é recusar esse trabalho. É eliminar a questão em vez de a responder. Nesse sentido, o Estado que proíbe em vez de educar não combate a violência: renuncia à linguagem, tal como a violência que alega prevenir.
Há algo profundamente perverso nisso.
Um Estado que se apresenta como protetor enquanto trata os pais como menores incapazes e as crianças como sujeitos a serem apagados da realidade, constrói uma sociedade onde ninguém se responsabiliza pela transmissão de valores. A responsabilidade se dissolve na norma, e a norma na proibição. O resultado não é uma sociedade pacífica, mas sim uma sociedade dessimbolizada, onde a frustração não é mais enfrentada, mas evitada… até ressurgir, precisamente, na forma de violência.
Esse narcisismo estatal é ainda mais preocupante porque se apresenta como moral. Alega saber melhor do que as famílias o que deve ser eliminado, mas se mostra incapaz de considerar o que devemos aprender a fazer: perder, esperar, recomeçar, conversar. Ao tentar erradicar todas as arestas da experiência humana, criamos indivíduos sem linguagem diante das dificuldades e, portanto, potencialmente, sem outro recurso a não ser reagir impulsivamente. Defender os videogames, nesse contexto, não é defender um passatempo. É defender uma ideia exigente de educação: uma educação que não protege da realidade, mas nos ensina a enfrentá-la sem abandonar a linguagem. Onde o Estado proíbe, devemos oferecer apoio. Onde ele moraliza, devemos transmitir conhecimento. E onde ele se cala enquanto impõe, devemos, ao contrário, reaprender a falar.